sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Quem se atreve a ter certeza?

Este livro convida você a um delicioso e intrigante mergulho nas questões do conhecimento, da ciência e da filosofia. Não pretende dar respostas definitivas, porque não existem. Como dizem seus autores, a intenção é levar os leitores aos conhecimentos e não levar os conhecimentos aos leitores. A Física Quântica deixa de ser um bicho-de-sete-cabeças, e várias outras questões como o princípio da incerteza, a inter-relação de todos os eventos físicos, de que é constituída nossa realidade, são apresentadas sem mistérios. Descortina-se um mar de todas as possibilidades. Abrem-se caminhos e mais caminhos para satisfazer a curiosidade inata e instigá-la a cada passo. Você não precisa ser cientista para entender este livro. Basta se aventurar na leitura. E você pode acabar tomando um café (ou um chá) com bolinhos, no encontro casual entre a nova ciência e a antiga filosofia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Entrevista com Alan Sokal


São Paulo, domingo, 9 de novembro de 1997.

POLÊMICA Livro de Sokal deixa Paris em chamas
Físicos atacam pensadores franceses em "Imposturas Intelctuais"

BETTY MILAN especial para a Folha

Na primavera de 1996, a comunidade acadêmica americana mal se deu conta de um artigo publicado na "Social Text", umas das revistas mais conceituadas dos EUA e conhecida pela particularidade de combinar posições de esquerda com influências da filosofia pós-moderna. Assinado por Alan Sokal, professor de física na Universidade de Nova York, o texto levava o enigmático título de "Atravessando as Fronteiras - Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica". O artigo só veio a ganhar repercussão quando seu autor revelou, meses depois, em outra revista, que realizara na verdade um grande embuste. No texto "Um Físico Faz Experiências com Estudos Culturais", para a revista "Lingua Franca" (de maio-junho de 1996), Sokal esclareceu que fizera propositadamente uma paródia, sem pé nem cabeça, de certa linguagem "pós-moderna" e "relativista", que recusa a possibilidade de se alcançar um conhecimento objetivo das coisas. O que ele realizara fora uma colagem de dados científicos verdadeiros com citações de obras de filósofos pós-modernos franceses, como Guattari, Deleuze e Derrida, e americanos, como Sandra Harding, sobre física e matemática -e por ele consideradas duvidosas. A revelação caiu como uma bomba nos meios universitários dos EUA. Depois de chegar às páginas do "The New York Times", a polêmica rapidamente tomou corpo e extrapolou as fronteiras dos EUA. Chegou inclusive ao Brasil, onde o economista Roberto Campos, em artigo na Folha de 22/9/96, elogiava Sokal por revelar "a submissão da idéia à ideologia" no pensamento das esquerdas. O próprio Sokal retrucaria a Campos (Folha, 06/10/96), dizendo que suas críticas se dirigiam apenas a uma parcela da esquerda, e que se considerava ainda um pensador de esquerda. Agora, com o lançamento no mês passado do livro "Imposturas Intelectuais", em parceria com o físico belga Jean Bricmont, Alan Sokal volta à carga. Tachados de "censores" pelo semanário francês "Le Nouvel Observateur", Sokal e Bricmont tentam mostrar no livro como os conceitos de ciências exatas que aparecem em escritos de Jacques Lacan, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Deleuze e Guattari, entre outros, não tem rigor científico algum e chegam a ser absurdos. Na França, o assunto suscitou um dos mais vivos debates dos últimos anos, além da indignação de boa parte da "intelligentsia" francesa. Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade à Folha no Hotel des Grands Hommes, em Paris, Sokal e Bricmont tecem suas considerações sobre as "imposturas" do celebrado pensamento pós-moderno francês.

Folha -Por que o sr. escreveu a paródia para a "Social Text"?

Alan Sokal - Ela se insere num contexto político. Eu me considero de esquerda porque me oponho à distribuição de renda atual. Constatei que certas tendências da esquerda acadêmica norte-americana adotaram o relativismo, ou seja, a idéia de que o conhecimento mais ou menos objetivo do mundo natural e social não pode existir, de que todo conhecimento é subjetivo. Até as ciências naturais não passariam de mitos. Opus-me a isso, pois acho que tais opiniões estão baseadas em erros e são politicamente suicidas. Nossa tarefa, se quisermos progredir, é elaborar uma análise da sociedade atual baseada no rigor, nos fatos, em uma análise convincente.

Folha - E por que o sr. recorreu à tática de escrever uma paródia e só depois revelar o que fizera?

Sokal - Constatei que nas universidades americanas os departamentos de literatura, ciências sociais e estudos femininos são fechados à crítica vinda do exterior e mesmo de dentro do país. A resposta é sempre a mesma. Ou bem ninguém responde. Por isso, tive a idéia de escrever uma paródia.

Folha - A Folha noticiou o fato, e o sr. foi até mesmo elogiado pelo economista Roberto Campos.

Sokal
- A relação entre as posições intelectuais e as posições políticas é complexa. Fomos apoiados por pessoas de esquerda e direita por idéias que não são de ordem política. Como você deve saber, escrevi uma resposta a Roberto Campos dizendo que não ridicularizava a esquerda inteira, mas apenas uma parte, e que fora apoiado pela maior parte da esquerda americana, quase 80% das revistas.

Folha - A impostura é para o sr. "o abuso reiterado de conceitos provenientes das ciências físico-matemáticas", e o abuso se define por muitas características, entre as quais "falar abundantemente de teorias científicas sobre as quais o sujeito só tem uma vaga idéia". Faz supor que se tem um conhecimento que não se tem. Ao mesmo tempo o sr. escreveu: "Claro que nós não somos competentes para julgar o conjunto da obra dos autores" (Lacan, Kristeva...) e que "nós tentaremos explicar em que consistem os abusos cometidos no que diz respeito às ciências exatas e por que eles nos parecem sintomáticos de uma falta de rigor e de racionalidade no conjunto da obra". Em outras palavras, o sr. afirma que não é capaz de julgar o conjunto, porém julga. Não se trataria também de uma impostura?

Sokal - Uma impostura não. Talvez nós não tenhamos explicado bem o que queríamos dizer. Focalizamos o que os autores dizem quando entram em searas que nós conhecemos, como a matemática e a física. Observamos que eles aí cometeram abusos graves. Valeram-se de conceitos em contextos onde eles não têm pertinência alguma, deformaram termos científicos etc. Isso obviamente não prova nada a respeito do resto da obra.

Folha - Mas está escrito na "Introdução" que os abusos dos autores indicam falta de rigor e racionalidade no conjunto da obra...


Sokal - As imposturas não invalidam a obra toda, e nós somos explicitamente agnósticos sobre a parte que não diz respeito à física. Claro que você pode me perguntar qual é então a importância do nosso livro se o papel da matemática e da física é tão pequeno na obra dos autores criticados. O livro é importante porque mostra que há abusos graves numa parte da obra e permite questionar o resto. Não somos competentes para dirigir o questionamento, porém desejamos que outros o façam.

Folha - A sua análise me parece justa quando o sr. diz que os autores têm um estilo pesado e pomposo e que estão errados ao dizer que há nas obras deles uma preocupação literária e poética. Mas é injusta, na medida em que o sr. só cita os textos incompreensíveis dos autores e não leva em conta o que eles fizeram compreender.

Sokal - Nós escolhemos um tema que é o abuso de conceitos da matemática e física. Os autores abusaram da autoridade, se valeram do fato de serem professores.

Folha - O sr. diz que os intelectuais franceses criticados são frequentemente incompreensíveis porque o que eles escrevem não quer dizer absolutamente nada.


Sokal - Refiro-me a textos determinados. Não faço uma crítica global.

Folha - Voltemos à questão da incompreensibilidade dos autores... Jean Bricmont - As pessoas podem ser favoráveis à psicanálise, mas também reconhecerem que nos textos citados por nós há impostura, ou seja, naqueles em que Lacan usa a matemática. Não pretendemos julgar a psicanálise dele e nem a filosofia de Deleuze.

Sokal - Não estamos dizendo que tudo deva ser imediatamente compreensível: 95% dos trabalhos da física não o são. Nós nos limitamos aos textos que se referem aos domínios que conhecemos bem.

Folha - Em um artigo, Julia Kristeva disse que por intermédio dela o sr. estava criticando a França inteira. O que é um exagero, claro. Mas ela teve razão ao dizer que as ciências humanas e, em particular, a interpretação dos textos literários e a interpretação analítica não obedecem à lógica das ciências exatas. Como o sr. responde a isso?

Sokal - Claro que a lógica não é a mesma, mas nós criticamos o livro da Kristeva sobre a semiótica, no qual ela despeja coisas incompreensíveis sobre o leitor. Bricmont - É importante dizer que não se trata de um debate entre o pensamento anglo-saxão e o francês. Existe na França um espírito francês racionalista, que apreciamos. Diderot, por exemplo, era um racionalista, ao contrário dos autores que criticamos.

Folha - O sr. tem razão ao falar do terrorismo do pensamento intelectual francês. Mas será que este terrorismo não é devido à submissão dos americanos do Norte e do Sul ao espírito sistemático de papagaíce no campo das idéias?

Sokal - Nós utilizamos a palavra terrorismo uma única vez a propósito da Kristeva, que cita um enunciado muito técnico da lógica matemática -um enunciado que nem os matemáticos entendem-, dizendo "sabe-se que", quando ninguém sabe. Trata-se de uma forma de intimidar o leitor.

Folha - Gostaria de saber se existe na América do Norte -como na do Sul- um espírito de imitação. Bricmont - Na do Sul existe. Basta alguém espirrar em Paris para as pessoas ficarem gripadas em Buenos Aires.

Sokal - Em Nova York é a mesma coisa. Podemos dizer que as modas intelectuais parisienses se reproduzem nas universidades norte-americanas e talvez nas brasileiras com um atraso de dez anos.

Folha - Em resposta ao seu livro, escreveu-se no "Nouvel Observateur" que existe incompatibilidade entre uma cultura norte-americana baseada no fato e na informação e uma cultura francesa que se vale mais da interpretação e do estilo. O que o sr. acha disso?

Sokal - Afirmar que os franceses não levam em conta os fatos e a informação é confundir a alta cultura com a alta-costura, que só se interessa pelo estilo. Bricmont - Trata-se de um trocadilho. Nós obviamente apreciamos a alta-costura. Sokal - O pensamento, em qualquer domínio, implica a argumentação. Não pode ser apenas uma questão de estilo. Se for, é poesia.

Folha - Os senhores são mais realistas do que o rei, mais insistentes na separação radical dos gêneros do que os clássicos franceses.

Bricmont - É verdade que me irrito quando encontro um filósofo, como Lyotard, que diz que Deleuze é literatura, quando é filosofia. Tenho tendência a achar que essa história de dizer que não é uma coisa nem outra não é possível.

Folha -Seja como for, a contribuição dos pensadores de língua francesa para a história das idéias não é propriamente negligenciável. Gostaria que os senhores fizessem um balanço da contribuição dos norte-americanos. Bricmont - Balanço é impossível, mas quero citar Chomsky, que é um racionalista e teria gostado do nosso livro.

Sokal - Quando o "Le Monde" disse que há um imperialismo norte-americano e que eu estou querendo impor a cultura da Disney na França, respondi que a América que nós apoiamos é a de Chomsky. Folha -Quais são as condições necessárias para a instauração de um verdadeiro diálogo entre as ciências exatas e as humanas? Bricmont - Há certos ensinamentos resultantes da leitura sistemática dos autores que criticamos. É preciso saber do que a gente está falando. Se alguém quer falar das ciências exatas, deve se informar seriamente. Tudo que é obscuro não é necessariamente profundo. É fundamental distinguir entre os discursos que são de difícil acesso por causa do assunto tratado e aqueles cuja banalidade fica escondida pela falta de clareza deliberada dos propósitos. A ciência não é um "texto". As ciências exatas não são um reservatório de metáforas prontas para serem utilizadas pelas ciências humanas, que têm seus próprios métodos e não precisam seguir as mudanças na física ou biologia. Não se deve usar o argumento de autoridade etc.

Folha - Vocês dizem que criticam as idéias obscuras porque elas reforçam o antiintelectualismo fácil existente na população. Acham que se trata de fazer uma ciência que seja clara e assim possa se tornar popular no próximo século?

Sokal - Popular no sentido da vulgarização? Bricmont - A vulgarização pode ser bem feita... Sokal - No livro, a cada vez que abordamos um domínio científico, procuramos nos referir a bons textos de vulgarização.

Folha - Qual é a relação entre a vulgarização e o mercado?

Sokal - Uma parte da literatura de vulgarização peca por excessos em virtude do mercado. Insiste, por exemplo, nas teorias mais especulativas, apresentando-as como decorrentes da ciência estabelecida. A vulgarização é difícil, é uma tradução de conceitos científicos. Em nosso livro nós explicamos a teoria da relatividade para um público que não é de cientistas.

Folha -Vocês terminam o seu livro dizendo: "Lembro-me que há muito existiu um país em que os pensadores e os filósofos se inspiravam nas ciências, pensavam e escreviam claramente, procurando compreender o mundo natural e social, esforçavam-se para difundir os seus conhecimentos entre os cidadãos e colocavam em questão as iniquidades da ordem social. Esta época era a do Iluminismo -das Luzes- e este país era a França". Gostaria de saber o que se pode esperar agora? Um novo iluminismo ou uma outra coisa?

Bricmont - O fim do livro foi para lembrar aos franceses que o nosso pensamento não é antifrancês. Tendo a pensar que o espírito do iluminismo deveria voltar, assim como a crítica aos abusos de poder que existem na sociedade. O que as pessoas de esquerda chamam de pensamento crítico é obscuro, relativamente obscurantista. Somos contra isso. Sokal - Houve um progresso cognitivo inacreditável neste século, que levou a um progresso tecnológico, mas os progressos cognitivo e tecnológico não implicaram um progresso moral. É preciso estabelecer distinções claras. Dizer que Auschwitz é a consequência do iluminismo é ridículo. Bricmont - Os fascistas utilizavam a tecnologia, mas eram contra o iluminismo.

Betty Milan é escritora, autora de "O Papagaio e o Doutor" e "Paris Não Acaba Nunca".
Onde encomendar: "Impostures Intellectuelles", de Alan Sokal e Jean Bricmont (Editions Odile Jacob, 274 págs., 140 francos), pode ser encomendado à Livraria Francesa (r. Barão de Itapetininga, 275, fundos, tel. 011/231-4555, São Paulo).

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Hipocrates




"Os homens precisam saber que de nada mais além do cérebro vem alegrias, prazeres, divertimentos e esportes, e tristezas, desapontamentos, desesperanças e lamentações. E, por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos visão e conhecimento, e nós vemos e ouvimos. E pelo mesmo órgão nós tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assaltam, alguns de noite e outros de dia … Todas essas coisas nós suportamos do cérebro, quando ele não é sadio."...........Hipocrates 460-355 a.C.

αλήθεια contemporânea

Eu estava vagando pelos canais sobre ocultismo e conspirações no youtube quando encontro esta palestra, a achei bem interessante, mas sem saber quase nada sobre aqui, sendo tudo aquilo praticamanete como algo novo para mim. Quando mostrei para algumas pessoas e por fim para meu professor de filosofia ele disse para tomar cuidado com videos de tais intenções de interdisciplinaridade, e me recomendou este livro. Seria de bom grado de todos ao menos ler este resumo. Pois é de tendencia estas interdisplinaridades. http://www.youtube.com/watch?v=d2Q_YaMPdko


O livro a todos os títulos importantíssimo está esgotado em Portugal. Daí que tenhamos considerado a oportunidade de publicar os dois textos seguintes introduzindo a obra desconhecida ainda de muitos

Imposturas Intelectuais - Alan Sokal e Jean Bricmont

A publicação deste livro em França parece ter criado uma pequena tempestade em determinados círculos intelectuais. De acordo com o que Jon Henley escreveu no The Guardian, mostrámos que «a moderna filosofia francesa é uma imensidão de disparates»

2. De acordo com o que Robert Maggiori escreveu no Libération, somos cientistas pedantes, sem humor, que corrigem os erros gramaticais das cartas de amor

3. Gostaríamos de explicar brevemente por que não concordamos com estas duas posições e de responder não só aos que nos criticam, como igualmente àqueles que nos apoiam com bastante entusiasmo.

O livro surgiu a partir de um já famoso embuste: um de nós publicou na Social Text, uma revista americana de estudos culturais, um artigo em forma de paródia com um amontoado de citações sobre física e matemática, sem nenhum sentido, mas infelizmente autênticas, da autoria de proeminentes intelectuais franceses e norte-americanos

4. No entanto, apenas uma pequena parte do dossier descoberto por Sokal durante a pesquisa bibliográfica que efectuou pôde ser incluído na paródia. Depois de termos mostrado o dossier na sua totalidade a amigos cientistas e não cientistas, convencemo-nos, pouco a pouco, de que valeria a pena colocá-lo à disposição de um público mais vasto. Pretendíamos explicar, em termos não técnicos, o absurdo das citações ou, em muitos casos, a simples ausência de sentido; pretendíamos igualmente discutir as circunstâncias que fizeram com que esses discursos alcançassem tal nomeada e tivessem continuado até então ocultos.Mas o que reivindicamos exactamente? Nem muito nem pouco. Mostramos que intelectuais famosos, como Lacan, Kristeva, Irigaray, Baudrillard e Deleuze, abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos científicos, quer usando ideias científicas totalmente fora do seu contexto, sem para tal fornecerem a mínima justificação -note--se que não nos opomos à extrapolação de conceitos de uma área para outra, mas apenas à que é efectuada sem qualquer tipo de argumentação-, quer lançando o jargão científico à cara dos leitores não cientistas, sem considerarem a sua relevância ou mesmo o seu sentido. Não reivindicamos que esta atitude invalide o resto da sua obra, em relação à qual evitamos qualquer juízo.Por vezes somos acusados de sermos cientistas arrogantes, mas a nossa opinião sobre o papel das ciências exactas é, na realidade, bastante modesta. Não seria óptimo (quer dizer, para nós, matemáticos e físicos) se o teorema de Gödel ou a teoria da relatividade tivessem implicações profundas e imediatas no estudo da sociedade? Ou se o axioma da escolha pudesse ser usado para estudar poesia? Ou se a topologia tivesse algo a ver com a psique humana? Mas, infelizmente, nada disto é assim.O segundo alvo do nosso livro é o relativismo epistémico, nomeadamente uma ideia que, pelo menos quando expressa explicitamente, está muito mais espalhada nos países anglo-saxónicos do que na França: a ideia segundo a qual a ciência moderna não é mais do que um «mito», uma «narrativa» ou uma «construção social» entre muitas outras

5. Além de alguns abusos enormes (por exemplo, Irigaray), analisamos em pormenor uma série de confusões muito frequentes nos circuitos do pós-modernismo e dos estudos culturais: por exemplo, a apropriação abusiva de ideias da filosofia da ciência, tais como a subdeterminação da teoria pelas provas e pelos testemunhos ou a ideia de que a observação depende da teoria, para apoiar o relativismo radical.Este livro é, portanto, constituído por duas concepções distintas, embora relacionadas entre si. Em primeiro lugar, há a colecção de abusos extremos descobertos muito ao acaso por Sokal: são essas as imposturas do título desta obra. Em segundo lugar, há a crítica que fazemos ao relativismo epistémico e às concepções erradas de «ciência pós-moderna»: estas análises são consideravelmente mais subtis. A ligação entre estas duas críticas é fundamentalmente sociológica: os autores franceses das «imposturas» estão na moda em muitos círculos académicos anglo-saxónicos, nos quais o relativismo epistémico é o pão nosso de cada dia

6. Há também um vínculo lógico mais ténue: se se aceita o relativismo epistemológico, então há menos razões para se discordar das más representações das ideias científicas, que de qualquer forma não passam de um outro «discurso».É óbvio que não escrevemos este livro para realçar alguns abusos isolados. Os nossos alvos são mais vastos, embora não sejam necessariamente os que nos são atribuídos. Este livro ocupa-se de questões como a mistificação, a linguagem deliberadamente obscura, a confusão de pensamento e o uso abusivo de conceitos científicos. Os textos que citamos podem ser a ponta de um icebergue, mas o icebergue deveria ser definido como um conjunto de práticas intelectuais, e não como um grupo social.Suponha-se, por exemplo, que um jornalista descobre e publica alguns documentos que provam que determinados políticos altamente respeitados são corruptos. (Sublinhamos o facto de que isto é uma analogia, ou seja, não consideramos que os abusos aqui descritos sejam tão graves.) É claro que algumas pessoas concluirão de imediato que a maioria dos políticos são corruptos, ideia que será encorajada por demagogos que pretendem retirar dividendos políticos dessa conclusão

7. Mas tal extrapolação seria errada.Considerar este livro uma crítica generalizada às humanidades e às ciências sociais -como alguns críticos franceses fizeram- seria não só não compreender as nossas intenções, como também revelaria, numa curiosa assimilação, uma atitude de um certo desprezo para com aquelas áreas que estão na mente daqueles críticos8. Se formos lógicos, os abusos denunciados neste livro podem coexistir ou não tanto nas humanidades como nas ciências sociais. Se coexistissem, então estaríamos realmente a atacar em bloco essas áreas, o que seria justificado. Se não coexistem (como cremos), então simplesmente não há razão para criticar um académico por aquilo que diz outro académico da mesma área. De uma maneira mais geral, qualquer leitura do nosso livro como um ataque incondicional a X -seja X o pensamento francês, a esquerda cultural americana ou outra coisa qualquer- pressupõe que o todo de X está permeado pelos maus hábitos intelectuais que denunciamos e essa acusação tem de ser estabelecida por quem a efectua.Enquanto escrevíamos este livro, beneficiámos de inúmeras discussões e debates, tendo recebido muitos encorajamentos e críticas. Apesar de não podermos agradecer individualmente a todos os que deram a sua contribuição, queremos exprimir o nosso reconhecimento àqueles que nos ajudaram, apontando referências ou lendo e criticando partes do manuscrito: Michael Albert, Robert Alford, Roger Balian, Louise Barre, Jeanne Baudouin von Stebut, Paul Boghossian, Raymond Boudon, Pierre Bourdieu, Jacques Bouveresse, Georges Bricmont, James Robert Brown, Tim Budden, Noam Chomsky, Helena Cronin, Bérangère Deprez, Jean Dhombres, Cyrano de Dominicis, Pascal Engel, Barbara Epstein, Roberto Fernández, Vincent Fleury, Julie Franck, Allan Franklin, Paul Gérardin, Michel Gevers, Michel Ghins, Yves Gingras, Todd Gitlin, Gerald Goldin, Sylviane Goraj, Paul Gross, Étienne Guyon, Michael Harris, Géry-Henri Hers, Gerald Holton, John Huth, Markku Javanainen, Gérard Jorland, Jean-Michel Kantor, Noretta Koertge, Hubert Krivine, Jean-Paul Krivine, Antti Kupiainen, Louis Le Borgne, Gérard Lemaine, Geert Lernout, Jerrold Levinson, Norm Levitt, Jean-Claude Limpach, John Madore, Andréa Loparic, John Madore, Christian Maes, Francis Martens, Maurice Mashaal, Tim Maudlin, Sy Mauskopf, Jean Mawhin, Maria McGavigan, N. David Mermin, Enrique Muñoz, Meera Nanda, Michael Nauenberg, Marina Papa, Patrick Peccatte, Jean Pestieau, Daniel Pinkas, Louis Pinto, Alain Pirotte, Olivier Postel Vinay, Patricia Radelet-de Grave, Marc Richelle, Benny Rigaux-Bricmont, Ruth Rosen, David Ruelle, Patrick Sand, Mónica Santoro, Abner Shimony, Lee Smolin, Philippe Spindel, Hector Sussmann, Jukka-Pekka Takala, Serge Tisseron, Jacques Treiner, Claire Van Cutsen, Jacques Van Rillaer, Loïc Wacquant, M. Norton Wise, Nicolas Witkowski e Daniel Zwanziger. Agradecemos igualmente aos nossos editores, Nicky White e George Witte, pelas suas sugestões valiosas. Sublinhamos que estas pessoas não estão necessariamente de acordo com o conteúdo ou mesmo com a intenção desta obra.Finalmente, agradecemos à Marina, à Claire, ao Thomas e ao Antoine por nos terem apoiado durante os últimos dois anos.Estamos muito contentes por este livro ser agora editado em Portugal. Esperamos que a partir dele possa ser desencadeado e estimulado neste país um debate fecundo e produtivo sobre as ideias nele contidas. Gostaríamos de exprimir a nossa profunda gratidão aos tradutores portugueses, Nuno Crato e Carlos Veloso, que colaboraram connosco com dedicação na preparação desta tradução e inseriram pacientemente no texto todas as nossas últimas indicações, alterações e melhoramentos.Prefácio à Edição PortuguesaSite de Alan Sokal: http://vesuvius.physics.nyu.edu/faculty/sokal/index.html

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Eu não sei o que Deus é,
mas sei o que Ele não
é